08 jul
por Endeavor

Há duas semanas, fui acompanhar a palestra de Chris Anderson – um dos palestrantes mais requisitados da atualidade, autor dos best-sellers “A Cauda Longa” e “Free – O futuro dos preços” – no Infotrends, evento sobre tecnologia e mídias sociais realizado pela Revista Info. Com um toque futurista, mas completamente compreensível dentro do cenário econômico atual, Chris falou por aproximadamente uma hora sobre a “Nova Revolução Industrial”: um novo modelo de produção e distribuição de produtos em escala mundial que se apóia sobre o conceito de construção colaborativa, trazido a tona pela internet.

De acordo com Chris Anderson, ao longo dos últimos 10 anos a internet nos revelou uma nova forma de trabalho, na qual todos podem contribuir e pequenos grupos possuem grande relevância. A Nova Revolução Industrial se refere aos próximos 10 anos, quando o conceito trazido pela internet se estenderá, de maneira avassaladora, para o mundo real. Em outras palavras, se a internet democratizou a comunicação – e, por conseqüência, a indústria editorial e a radiodifusão – o resultado foi um aumento maciço tanto de participação como de participantes em tudo o que é digital – isso seria a cauda longa de bits. Agora o mesmo está ocorrendo na fabricação – a cauda longa das coisas. E Chris não cansa de repetir: átomos são os novos bits.

Provavelmente a melhor forma de explicar essa revolução em curso  seja através de exemplos; iniciativas alinhadas a esse modelo que têm obtido sucesso numa escala ainda pequena, porém com fortes indícios de crescimento no médio e longo prazo.

MAKERBOT – UMA IMPRESSORA DE PRODUTOS NA SALA DE CASA

A MakerBot é uma impressora 3D que produz peças de plástico com base em arquivos digitais. Basicamente, em vez de esguichar tinta, a MakerBot constrói objetos espremendo um fio de 0,3 milímetro de espessura de plástico ABS derretido. Como comparação, a impressora 2D inovou ao transformar pixels em tinta. A 3D inova ao transformar pixels – vetorizados – em produtos. O valor da primeira linha de MakerBot, lançada recentemente, saiu por menos de 1000 dólares. Há cinco anos, não se conseguiria algo assim por menos de 125 000 dólares. Isso quer dizer que, em pouco tempo, essa máquina estará na sala da sua casa.

Neste ponto você deve estar pensando “mas para que eu preciso de uma máquina de impressão 3D dentro de minha casa?”. Chris Anderson explicou que muitas inovações radicais, num primeiro momento, tem sua utilidade pouco clara. A impressora 2D, por exemplo, permaneceu por anos uma incógnita em termos de utilização. Até que os recursos digitais evoluíram, o número de arquivos cresceu assustadoramente, e vieram as fotografias digitais para coroar sua utilidade. O mesmo aconteceu com o notebook, que inicialmente teve sua utilização restrita aos professores universitários e pesquisadores. A internet evoluiu e trouxe sentido ao aparelho. Com a impressora 3D, segundo Chris, deve acontecer o mesmo. Ou seja, em algum momento ficará clara a razão de sua existência e ela se tornará um elemento essencial em nossas vidas.

Viu a MakerBot em ação no vídeo acima? Achei especialmente interessante o fato dela ser feia e barulhenta, como todos as demais grandes invenções eletrônicas em sua versão inicial. Parece que já nasce com cara de antiguidade.

shapeways_logo

SHAPEWAYS – A CRIAÇÃO DE PRODUTOS NAS MÃOS DO CONSUMIDOR

A Shapeways leva o conceito de impressão 3D para as massas. O serviço permite a artistas, arquitetos, designers e aventureiros fazerem versões reais de suas invenções digitais. O processo é simples: basta preencher um formulário digital sobre o produto e o programa de computador da empresa irá analisar as informações para saber se é possível fazê-lo e, em alguns casos, realiza os ajustes. É disponibilizada também uma plataforma online para que pessoas sem qualquer conhecimento em design possam conceber seus produtos. Uma vez finalizado o processo, você dá ordem de compra e a produção inicia. Em alguns dias o produto chegará até você pelo correio. O resultado foi bom? Você acha que outras pessoas gostariam do seu produto? A Shapeways tem uma loja virtual para que sua legião de inventores coloque a prova do mercado suas criações.

LOCAL MOTORS – UMA MICROFÁBRICA PODE MUDAR A FORMA COMO CARROS SÃO PRODUZIDOS E CONSUMIDOS

A Local Motors é uma empresa americana que promete revolucionar a indústria automobilística. O primeiro carro lançado se chama Rally Fighter, um cupê offroad criado de forma colaborativa pela internet: do design a montagem, passando pela escolha de todas as peças do automóvel. Uma nova forma de interação que levou a Local Motors a ser classificada como “o futuro da produção industrial americana” pela revista Wired.

O vídeo abaixo conta em detalhes o modelo de trabalho da Local Motors (em inglês). A Revista Época também publicou uma ótima entrevista com John B. Rogers, diretor-executivo e cofundador da Local Motors, que você pode conferir clicando aqui.

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A partir da palestra e destes exemplos, concluo que a grande inovação da Nova Revolução Industrial é colocar, como jamais antes na história, o indivíduo como elemento central do processo de produção industrial. Essa conclusão é reforçada por Chris Anderson, em um artigo escrito recentemente sobre o tema :

Uma mudança transformadora ocorre quando indústrias se democratizam, quando elas são arrancadas do domínio exclusivo de empresas, governos e outras instituições e entregues a pessoas comuns.

As ferramentas de produção fabril, da montagem de eletrônicos à impressão 3D, estão agora à disposição de indivíduos em quantidades tão pequenas que podem ser de até mesmo uma simples unidade. Qualquer pessoa com uma ideia e um pouco de expertise pode pôr em movimento linhas de montagem na China com nada mais que seu laptop. Alguns dias depois, um protótipo estará em sua porta e, se tudo estiver nos conformes, ela pode apertar mais alguns botões e colocar o produto em plena fabricação, produzindo centenas, milhares de unidades, ou mais. Ela pode até se tornar uma microfábrica virtual capaz de planejar e vender bens sem nenhuma infraestrutura, e até mesmo sem estoque; a produção pode ser montada e despachada por terceiros que atendem centenas desses clientes simultaneamente.

Confesso que a Nova Revolução Industrial, ao mesmo tempo em que me fascinou pelas infinitas possibilidades de inovação, deixou-me confuso sobre os rumos que a economia global está tomando. Afinal, essa revolução pode atenuar as diferenças econômicas e sociais entre os países? O caráter democrático intrínseco a sua evolução pode ser considerado, de fato, uma chance de desenvolvimento econômico mais igualitário entre as nações? Perguntei ao Chris e tive a seguinte resposta:

A meu ver, Chris Anderson deu voltas e não respondeu a minha pergunta. Continuo em dúvida e gostaria de saber a opinião de vocês. O que você acha da Nova Revolução Industrial? Você já está utilizando alguma das inovações apontadas por Chris Anderson? E, finalmente, a nova revolução traz a mesma possibilidade de desenvolvimento econômico a todos os países?

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LEANDRO HERRERA é Gestor de Conteúdo da Endeavor Brasil. Siga em @leandroherrera


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  • 9 comentários para “Chris Anderson e a Nova Revolução Industrial”

    1. José Carlos Oliveira dos Santos disse:

      Excelente matéria, inovador assunto e muito interessante, vou enviar para todos os meus contatos

    2. Eu, particularmente, percebo essa nova revolução industrial como algo positivo, pois resultará em mais oportunidades de desenvolvimento de ideias inovadoras, porém é claro que nações mais empreendedoras vão se destacar sobre as outras e nisso algumas nações podem perder muito. Nosso país não é culturalmente empreendedor, ao contrário, nosso governo alimenta uma política social degenerativa que não motiva as pessoas a se desenvolverem economicamente e socialmente.

      Se os governos não fomentarem o empreendorismo e a inclusão digital inteligente, essa revolução industrial fará mais pessoas milionárias, mas não nações bem desenvolvidas e isso, ao meu ver, pode sim aumentar a desigualdade social, não só entre as nações, mas entre as pessoas.

      Eu, apesar de ainda não utilizar nenhuma dessas novas tecnologias, sou completamente favorável a elas e, com certeza, vou me adaptar e fazer parte dessa nova revolução.

    3. [...] desenvolvido pela Local Motors, com todo o conteúdo 100% Creative Commons. O vídeo acima, publicado no blog da Endeavor esses dias, que além de uma caranga cheia de estilo, plataformas abertas também podem gerar [...]

    4. andre disse:

      Eh possivel se equilibrar no twitter? Experimente http://www.twitter.com/youbalanced

    5. Lissandra disse:

      Muito Boa a matéria. Sinto que esse movimento já vem acontecendo e nos próximos 10 anos então vai ser a década das transformações.

    6. Wilton Santos disse:

      Fantastica materia. E impressionante o rumo que a internet esta dando a economia mundial. Ha alguns anos atras jamais imaginavamos o impacto que midias sociais, e ferramentas de colaboracao trariam a nossa sociedade.

    7. Daniel disse:

      Acredito que todos nós, invariavelmente, iremos usufruir dessa nova Revolução Industrial. Se não como inventores, como comumidores. E por fim, creio que esta revolução não traga a mesma possibilidade de desenvolvimento para todos os países e os governos que perceberem isso primeiro poderão se colocar um passo a frente dos demais.

    8. Essa “Nova Revolução” na realidade é reflexo de uma comunidade cada vez mais democrática. Perceba que todas as Co-criações tem muito mais valor do que as criações “patenteadas”. Sentir-se co-criador de algo motiva o consumo do produto ou serviço. Essa revolução já está acontecendo ha muito tempo mas só está sendo percebida agora. Tenho um produto (www.granatum.com.br) que tem como base evolutiva os feedbacks dos próprios usuários. Por utilizar metodos ágeis de desenvolvimento consigo atender a demanda destes feedbacks em iterações de 2 semanas, ou seja, a cada 2 semanas tenho uma nova versão do meu software rodando, baseado nos feedbacks. Eu particularmente acho que esse novo pensamento tras mais força para a economia e consolida boas idéias.

    9. Para mim está claro, quando ele sugere (afinal, ainda
      está no plano teórico essa realidade). O que movia a desigualdade social, pelos parâmetros clássicos, era o domínio dos bens de produção, logo sem capital de giro ou informação estratégica ,igual a sem oportunidades. O que essa nova teoria propõe é a já não é mais o domínio sobre a educação ou sobre os bens. Sim, a visão estratégica mais a capacidade para enxergar mercados potências, dentro de uma sociedade colaborativa.
      Se eu moro na Tanzânia, mas através de pesquisas, sei como um Sueco aprecia a demanda por calor. Posso empreender peças de vital importância para produtos que respondam essa demanda ( como um aquecedor para Sauna). No meu país, não há necessidade desse produto, mas através da internet consigo interferir na realidade de uma sociedade não familiar ( Dentro da idéia Ilha Global).
      O mais difícil para os países não desenvolvidos será a percepção da necessidade do trabalho.
      (Quando vão inventar o sinal de irônia?)

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